“Se eu começar, nunca mais vou conseguir largar.” “Quem toma remédio é porque é fraco.” “Já melhorei, então posso parar.” Se você já pensou ou ouviu alguma dessas frases sobre antidepressivo, este texto é para você. Aqui você vai entender se antidepressivo vicia, quanto tempo o antidepressivo demora para fazer efeito, quais são os efeitos colaterais do antidepressivo e por que a resposta para “posso parar o antidepressivo por conta própria?” é sempre não. Sem julgamento, sem terrorismo, só informação confiável.
O assunto está em alta. Nesta semana, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem mostrando que milhões de pessoas usam antidepressivos, mas a ciência ainda está desvendando exatamente como eles agem. Em outubro, a agência reguladora de medicamentos do Reino Unido, a MHRA, anunciou novos alertas nas bulas desses remédios. E nas redes sociais, milhares de posts em português falam do tema todos os dias, entre piadas sobre efeitos colaterais, relatos de quem esqueceu doses e, infelizmente, muito preconceito.
Para que serve o antidepressivo?
Apesar do nome, o antidepressivo não é só para depressão. Segundo o NHS, o serviço público de saúde britânico, ele também é usado no tratamento de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobia social, TOC e estresse pós-traumático, entre outras condições. Os mais prescritos são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como sertralina, escitalopram e fluoxetina.
Um ponto importante: remédio não é o único caminho, nem sempre o primeiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os tratamentos psicológicos são a primeira opção para a depressão e que, nos casos moderados e graves, eles podem ser combinados com antidepressivos. Para a depressão leve, segundo a OMS, o medicamento não é necessário.
Mito 1: “Antidepressivo vicia?”
Não no sentido de vício que a gente costuma imaginar. O Royal College of Psychiatrists, entidade britânica de psiquiatria, explica que vício envolve fissura pela substância, perda de controle sobre o uso e sensação de “barato”, o que acontece com álcool, nicotina e benzodiazepínicos (os calmantes “tarja preta” como o clonazepam). O antidepressivo não dá “barato”.
O que pode acontecer é a dependência física: o corpo se adapta ao remédio e, se ele for retirado de repente, aparecem sintomas de descontinuação. Por isso a retirada precisa ser gradual e acompanhada.
Mito 2: “Tomar antidepressivo é fraqueza”
Ninguém chama de fraco quem toma remédio para pressão ou insulina para diabetes. A depressão é uma doença, e o Ministério da Saúde estima que cerca de 15,5% dos brasileiros terão depressão em algum momento da vida. A OMS aponta o estigma social como uma das barreiras que impedem as pessoas de buscar cuidado. Ou seja, o preconceito não é só injusto: ele adoece.
Verdade: quanto tempo o antidepressivo demora para fazer efeito
Aqui mora uma das maiores frustrações. De acordo com o NHS, o antidepressivo costuma levar de 1 a 2 semanas para começar a agir e pode levar até 8 semanas para funcionar por completo. Muita gente desiste na segunda semana achando que “não serviu”. Por isso, o acompanhamento no início é tão importante: o NHS recomenda consultas a cada 1 ou 2 semanas logo depois que o tratamento começa.
A reportagem da Folha traz um detalhe interessante: pesquisadores da Universidade de Oxford mostraram que o remédio muda rapidamente a forma como o cérebro processa informações emocionais negativas, mas a melhora real vem depois, conforme a pessoa “reaprende” a enxergar a si mesma e o mundo. E quem tem apoio social e faz psicoterapia tende a se beneficiar mais. O próprio texto compara o antidepressivo a um gesso ou a um andaime: ele sustenta enquanto a reconstrução acontece.
O mito do “desequilíbrio químico”
Talvez você tenha ouvido que o remédio “corrige a falta de serotonina”. Segundo a Folha, as evidências mostram, pelo menos desde os anos 2000, que não é bem assim: os efeitos parecem vir de uma cascata de mudanças nas células nervosas e nos circuitos cerebrais. Isso não significa que o remédio não funcione, só que a explicação é mais complexa.
Efeitos colaterais do antidepressivo: o que é comum
Como todo medicamento, ele pode ter efeitos colaterais. O NHS lista entre os mais comuns:
- enjoo, dor de estômago, boca seca e dor de cabeça;
- sono alterado, sonolência ou tontura;
- agitação ou ansiedade nos primeiros dias;
- alterações de peso e de apetite;
- problemas sexuais, como queda da libido ou dificuldade de chegar ao orgasmo.
Muitos desses efeitos diminuem depois de algumas semanas. Outros podem continuar, e aí vale conversar com o médico sobre ajustar a dose ou trocar de remédio, já que existem várias opções. A Folha também cita uma pesquisa com mais de 700 pessoas em que quase metade relatou certo “embotamento emocional” (aquela sensação de sentir tudo meio abafado). Se isso acontecer com você, fale abertamente na consulta.
Atenção a um sinal raro, mas sério: o NHS alerta que algumas pessoas, principalmente com 24 anos ou menos, podem ter pensamentos suicidas no começo do tratamento. Foi justamente para deixar esse aviso mais visível que a MHRA anunciou um novo alerta em destaque nas bulas. Se acontecer, procure ajuda imediatamente.
Antidepressivo e álcool: pode?
O NHS desaconselha a combinação: o álcool pode piorar os sintomas e aumentar a sonolência e a tontura.
Posso parar o antidepressivo por conta própria?
Não. Este é o recado mais importante do texto. O NHS orienta manter o tratamento, em geral, por pelo menos 6 meses depois que os sintomas melhoram, e a retirada deve ser planejada com o médico, reduzindo a dose aos poucos ao longo de semanas ou meses. Parar de repente pode causar tontura, irritabilidade, insônia, sonhos estranhos e sensações de “choquinho” na cabeça.
O Ministério da Saúde reforça que interromper o tratamento por conta própria pode aumentar significativamente o risco de a depressão se tornar crônica. E a MHRA, mesmo ao reforçar os alertas, foi clara: para a grande maioria das pessoas, os benefícios superam os riscos, e ninguém deve parar o remédio sem falar antes com um profissional de saúde.
O que você pode fazer junto com o tratamento
O remédio ajuda, mas o cuidado é um conjunto. A OMS recomenda, para quem convive com depressão:
- manter atividades de que você gostava, mesmo em versão reduzida;
- ficar perto de amigos e família;
- mexer o corpo regularmente, nem que seja uma caminhada curta;
- manter horários regulares de sono e alimentação;
- evitar ou reduzir o álcool;
- conversar com alguém de confiança sobre o que sente.
Pelo SUS, segundo o Ministério da Saúde, o tratamento da depressão pode ser feito na atenção primária (a UBS do seu bairro), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e em ambulatórios especializados. Se você estiver em sofrimento intenso ou com pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188, de graça e 24 horas.
Para levar com você
Antidepressivo não é muleta, não é fraqueza e não transforma ninguém em outra pessoa. É uma ferramenta que, bem indicada e acompanhada, ajuda muita gente a sair do fundo do poço. Tire suas dúvidas com quem prescreveu, dê tempo ao tratamento e nunca pare sozinho. Cuidar da mente também é autocuidado.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico ou psicólogo. Não inicie, altere ou interrompa nenhum medicamento sem orientação profissional.