Como lidar com o luto no Dia de Finados: a saudade não tem prazo (e 7 gestos que acalmam o coração)

Como lidar com o luto: mãos de pessoa idosa segurando buquê de crisântemos amarelos e brancos sobre mesa de madeira, ao lado de óculos e vela acesa

Segunda-feira, 2 de novembro, é Dia de Finados. Para muita gente, é dia de flores, vela e visita ao cemitério. Para outras, é só um dia em que a saudade aperta mais do que o normal, mesmo que a perda tenha acontecido há anos. Se você anda com o peito pesado nesta semana, este texto é para você. Vamos conversar sobre como lidar com o luto no Dia de Finados, se as 5 fases do luto existem de verdade, quanto tempo dura o luto e o que fazer quando a dor não dá trégua. Sem fórmulas prontas, com carinho e com o que a ciência já sabe.

Por que a saudade aperta mais no Dia de Finados

Datas carregadas de memória funcionam como gatilhos. Em entrevista à Rádio Caxias, a psicóloga especialista em luto Luana Dondé Tochetto Scopel lembrou que datas comemorativas e momentos ligados a lembranças podem intensificar o sofrimento, mesmo muito tempo depois da perda. E ela resumiu bem: “Não dizemos que o luto termina ou que se cura. Assim como o amor permanece mesmo com a morte, o luto também pode permanecer ao longo da vida”.

Ou seja: sentir saudade forte de novo não significa que você “regrediu”. Significa que aquele vínculo continua importante. E, quando a pergunta é como lidar com a saudade de quem morreu, o primeiro passo costuma ser parar de se cobrar.

As 5 fases do luto existem? O que a ciência diz

Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Quase todo mundo já ouviu falar. Só que, como mostrou uma reportagem do UOL publicada nesta semana, especialistas são enfáticos: essas fases não são um roteiro obrigatório nem linear. A professora Samantha Mucci, da Unifesp, coordenadora do Programa de Acolhimento ao Luto (Proalu), explica: “O luto não é uma escada que subimos até a aceitação, mas sim um longo processo de adaptação a uma nova realidade, com idas e vindas”.

A própria origem do modelo ajuda a entender. Segundo a BBC, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross descreveu essas reações a partir de entrevistas com pacientes que estavam morrendo, e não com pessoas enlutadas. O filho dela conta que as fases eram uma estrutura solta, “não uma receita ou uma escada”. O psicólogo George Bonanno, da Universidade Columbia, alerta na mesma reportagem que quem não passa pelas etapas pode acabar achando que está vivendo o luto “do jeito errado”. O Ministério da Saúde vai na mesma linha: nem todos passam por todas as fases, nem na mesma ordem.

O luto vai e volta, e isso é saudável

Um modelo bem aceito entre pesquisadores é o do processo dual, de Margaret Stroebe e Henk Schut. Ele propõe que a pessoa enlutada oscila: em alguns momentos encara a perda (chora, lembra, sente); em outros, cuida da vida que segue (trabalho, contas, novas rotinas). E os autores defendem que fazer pausas no sofrimento faz parte de um enfrentamento saudável. Então, se você riu de algo hoje e chorou meia hora depois, está tudo bem.

O luto também mora no corpo

Luto não é só tristeza. Mexe com sono, apetite, concentração e energia. Para o sistema nervoso, a perda é um estresse enorme. Um estudo publicado na revista Circulation, com 1.985 pessoas internadas por infarto, observou que o risco de infarto foi cerca de 21 vezes maior nas 24 horas após a notícia da morte de alguém importante, caindo nos dias seguintes. O risco absoluto continua pequeno, mas o recado é claro: quem está de luto precisa de cuidado com o corpo também, especialmente quem já tem problemas cardíacos.

Como lidar com o luto: 7 gestos simples para estes dias

  1. Dê permissão para sentir. Tristeza, raiva, culpa e até alívio podem aparecer misturados. O Ministério da Saúde orienta aceitar as emoções e não ter medo de expressá-las.
  2. Escolha o seu jeito de homenagear. Visitar o cemitério, rezar, acender uma vela, cozinhar a receita preferida da pessoa ou ficar em casa em silêncio. Não existe forma certa. Se uma tradição está pesada demais este ano, você pode dizer não.
  3. Acalme o corpo antes do momento difícil. Antes de sair de casa ou de olhar fotos, faça algumas respirações lentas, soltando o ar mais devagar do que puxou. Coloque a mão no peito e sinta os pés no chão.
  4. Fale da pessoa em voz alta. Conte uma história engraçada, diga o nome dela. Na reportagem do UOL, a juíza Thielly Pitthan, que perdeu o irmão, conta que a escrita tem participado do seu processo de cura. Uma carta para quem partiu pode ajudar.
  5. Alterne: um tempo para a saudade, um tempo para a vida. Reserve um momento para lembrar e, depois, faça algo que cuide de você: uma caminhada, um banho demorado, uma refeição de verdade.
  6. Proteja o básico. Durma o que conseguir, coma em horários regulares, beba água e evite usar o álcool para anestesiar a dor.
  7. Não atravesse sozinho. Mande mensagem para alguém de confiança dizendo “hoje está difícil”. Ter uma rede de apoio, segundo o Ministério da Saúde, ajuda a enfrentar o luto de maneira mais suave.

O que dizer para quem perdeu alguém

Se é você quem quer apoiar, menos é mais. Frases como “tenha força”, “o tempo cura tudo” e “foi melhor assim”, mesmo ditas com boa intenção, podem minimizar a dor, alertou a psicóloga ouvida pela Rádio Caxias. Prefira “sinto muito”, “estou aqui” e ajuda prática: levar uma comida, acompanhar ao cemitério, cuidar das crianças por uma tarde. Como resumiu Samantha Mucci ao UOL: quem está enlutado precisa de “presença, escuta e autorização para sentir”.

Quanto tempo dura o luto? E quando é luto prolongado

Não existe prazo certo. A saudade pode durar a vida inteira, e isso é normal. O que preocupa é outra coisa. A Organização Mundial da Saúde reconhece na CID-11 o transtorno de luto prolongado: quando, depois de pelo menos seis meses, a pessoa vive uma saudade ou preocupação intensa e constante com quem morreu, com dor emocional forte, de um jeito que vai muito além do esperado na sua cultura e que atrapalha bastante a vida pessoal, familiar ou profissional.

Entre os sintomas de luto prolongado estão sentir que perdeu uma parte de si, dificuldade de aceitar a morte, dormência emocional, incapacidade de sentir alegria e afastamento das pessoas. Segundo uma revisão publicada na revista World Psychiatry, depois do primeiro aniversário da morte é relativamente raro (de 4% a 15% dos enlutados) continuar com uma saudade tão intensa que ocupa o dia inteiro e impede de seguir a rotina. Nesses casos, vale uma avaliação profissional.

Procure ajuda se a dor não dá trégua há muitos meses, se você não consegue retomar o básico ou se a vida parece ter perdido o sentido. Pelo SUS, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) podem oferecer suporte e acompanhamento, conforme o Ministério da Saúde. Se aparecerem pensamentos de morrer ou de se machucar, ligue agora para o CVV no 188, de graça e 24 horas por dia.

Para levar com você

Não existe jeito certo de passar por Finados. Existe o seu jeito. Se der vontade de chorar, chore. Se der vontade de rir lembrando de alguma história, ria. A saudade é o amor que ficou sem endereço, e ele merece ser cuidado com gentileza, inclusive por você.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um psicólogo ou médico.

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