Nesta semana, o Brasil se comoveu com a história de um pedreiro de 49 anos que vendeu o que tinha e viajou mais de 2 mil quilômetros atrás de uma mulher que não existia: era uma personagem criada por inteligência artificial. O caso levanta uma pergunta que muita gente faz em silêncio: como lidar com a solidão num mundo em que até o afeto pode ser simulado? Neste guia, você vai entender o que a ciência diz sobre a solidão, como saber se um perfil é feito por IA e quais passos simples ajudam a criar conexões reais.
O caso da “mulher de IA”: o que aconteceu
Segundo o g1, Edimar Rocha Martins saiu de Imperatriz (MA) rumo a Belo Horizonte acreditando que encontraria “Jéssica”, uma moça que aparecia em vídeos dizendo morar sozinha numa fazenda e procurar um companheiro para “dividir a vida”. O perfil tinha mais de 300 mil seguidores no TikTok. Na capital mineira, ele mostrou fotos dela a pessoas na rua e procurou uma rádio, até perceber que ela não existia. “Eu vim em busca de uma felicidade, né?! Eu tenho 49 anos, sou divorciado”, contou ao g1.
O responsável pela página disse que a personagem foi criada para gerar engajamento para vendas e negou ter conversado diretamente com ele. Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, criar um personagem por IA, por si só, não é crime, mas usar a tecnologia para enganar alguém e obter vantagem pode configurar estelionato ou fraude eletrônica. Edimar foi acolhido pela prefeitura e recebeu uma passagem de volta para casa.
Solidão faz mal para a saúde? O que dizem a OMS e a ciência
Sim, e muito mais do que se imagina. Em 2025, a Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde divulgou um relatório mostrando que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, que está associada a mais de 871 mil mortes por ano, cerca de 100 a cada hora. Segundo a OPAS/OMS, a solidão e o isolamento aumentam o risco de AVC, doenças cardíacas, diabetes e declínio cognitivo, e pessoas solitárias têm o dobro de probabilidade de desenvolver depressão.
Para a OMS, solidão é o sentimento doloroso que surge da distância entre as conexões que desejamos e as que realmente temos. Dá para estar cercado de gente e, ainda assim, se sentir só.
Uma meta-análise clássica publicada na PLOS Medicine (Holt-Lunstad e colaboradores, 2010), que reuniu 148 estudos e 308.849 participantes, encontrou 50% mais chance de sobrevivência entre pessoas com relações sociais mais fortes. Os autores concluíram que a influência das relações sobre o risco de morte é comparável à de fatores de risco bem estabelecidos.
E no Brasil? Uma pesquisa nacional do Family Talks com a Market Analysis, divulgada em março de 2026, apontou que 41,1% dos adultos relatam solidão, com taxas maiores entre mulheres (46,2%) e nas classes C2 e D/E (cerca de 45%). Entre brasileiros com 50 anos ou mais, um estudo com dados do ELSI-Brasil, publicado nos Cadernos de Saúde Pública (Fiocruz), encontrou 16,8% que diziam se sentir sozinhos “sempre”. Esse sentimento esteve associado a depressão, a morar só e a pior qualidade do sono.
Por que a carência deixa a gente mais vulnerável
Quando a solidão aperta, uma promessa de carinho soa como alívio imediato. Segundo o g1, os vídeos da personagem diziam coisas como “sinto falta de ter companhia pra conversar” e “quero te bancar”. Mensagens assim falam direto com quem está cansado ou passando por perdas. Cair nelas não é burrice: é humano. O cuidado está em reconhecer esse ponto sensível antes de tomar decisões grandes.
Relacionamento com inteligência artificial faz mal?
A resposta curta: depende do uso, e a ciência ainda está aprendendo. Um estudo controlado e randomizado do MIT Media Lab com a OpenAI (Fang e colaboradores, 2025) acompanhou 981 pessoas por quatro semanas, com mais de 300 mil mensagens trocadas com um chatbot. Quem usou voluntariamente o chatbot por mais tempo por dia apresentou, em média, mais solidão, menos convivência com pessoas reais e mais dependência emocional da IA. É uma associação, sem prova de causa, e o estudo foi financiado pela OpenAI. Mesmo assim, o recado vale: a tecnologia pode fazer companhia, mas não substitui o abraço e a presença.
Como saber se um perfil é feito por inteligência artificial
Um especialista ouvido pelo g1 lista alguns sinais em vídeos gerados por IA:
- movimentos pouco naturais;
- expressões faciais estranhas;
- falhas na sincronia entre a voz e os lábios;
- inconsistências visuais ao longo do vídeo.
Mas essas falhas estão cada vez menos visíveis. Por isso, o mais importante é verificar a origem: quem controla o perfil, se a conta é confiável e se outras fontes confirmam aquela pessoa.
Golpe do amor nas redes sociais: como se proteger
- Faça uma chamada de vídeo ao vivo antes de criar expectativas sérias.
- Desconfie de promessas grandes e rápidas, como “você nunca mais vai precisar trabalhar”.
- Siga a orientação da Polícia Civil citada pelo g1: confirme a identidade antes de viajar ou fazer qualquer transferência de dinheiro.
- Conte para alguém de confiança antes de decisões grandes. Um olhar de fora protege.
- Se suspeitar de fraude, guarde mensagens e comprovantes e registre um boletim de ocorrência.
Como lidar com a solidão e a carência: 7 passos práticos
A OMS lembra que cada pessoa pode fazer diferença com ações simples e cotidianas. Inspirado nessas recomendações, aqui vai um roteiro para começar hoje:
- Dê nome ao que sente. Diga para si: “estou me sentindo sozinho”. Reconhecer abre espaço para agir.
- Mande uma mensagem hoje. Escolha uma pessoa de quem você sente falta e escreva: “Lembrei de você. Como você está?”.
- Guarde o celular durante as conversas. Estar presente de verdade é um dos gestos que a OMS cita para fortalecer vínculos.
- Cumprimente um vizinho. Pequenas conexões do dia a dia, com o porteiro ou a moça da padaria, também contam.
- Entre em um grupo local. Caminhada, coral, igreja, horta comunitária, aula na praça: atividades com encontros regulares facilitam a amizade.
- Seja voluntário. Ajudar alguém dá sentido, rotina e novas pessoas por perto.
- Limite a tela à noite. Se a solidão bate na hora de dormir, troque o feed por uma ligação curta ou um livro.
Como fazer novas amizades na vida adulta
Amizade de adulto costuma nascer da repetição: ver as mesmas pessoas, no mesmo lugar, com frequência. Por isso, mais vale um grupo semanal do que um grande evento por ano. Comece pequeno e volte na semana seguinte.
Quando procurar ajuda
Se a solidão vem acompanhada de tristeza profunda por semanas, falta de esperança, isolamento ou pensamentos de se machucar, procure apoio profissional em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188, além de chat e e-mail. Mulheres em situação de violência ou cuidadoras de familiares com deficiência ou doenças raras também podem agendar teleatendimento gratuito em saúde mental pelo SUS, pelo aplicativo Meu SUS Digital, segundo o Ministério da Saúde. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica.
Conclusão
A história de Edimar não é sobre ingenuidade: é sobre a necessidade humana de ser visto e acompanhado. Saber como lidar com a solidão começa com gestos pequenos e reais, uma mensagem, um bom-dia, um grupo na praça, e com cuidado diante de promessas perfeitas demais nas telas. Que tal mandar agora uma mensagem para alguém de quem você sente falta?
Referências
- g1 Minas. “Viagem de 2 mil km, promessa de vida no campo: entenda caso de homem ‘enganado’ por ‘mulher de IA’ e saiba identificar perfis virtuais”. 17/10/2026. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/10/17/viagem-de-2-mil-km-promessa-de-vida-no-campo-entenda-caso-de-homem-enganado-por-mulher-de-ia-e-saiba-identificar-perfis-virtuais.ghtml
- OPAS/OMS. “Conexão social é associada à melhoria da saúde e redução do risco de morte prematura”. 30/06/2025. https://www.paho.org/pt/noticias/30-6-2025-conexao-social-e-associada-melhoria-da-saude-e-reducao-do-risco-morte-prematura
- Holt-Lunstad J., Smith T.B., Layton J.B. “Social Relationships and Mortality Risk: A Meta-analytic Review”. PLOS Medicine, 2010. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2910600/
- Family Talks e Market Analysis. “Quatro a cada dez brasileiros se sentem sozinhos”. 19/03/2026. https://familytalks.org/publicacoes/noticias/quatro-a-cada-dez-brasileiros-se-sentem-sozinhos-revela-pesquisa-inedita-do-family-talks-com-market-analysis
- Cadernos de Saúde Pública (SciELO/Fiocruz). “Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil”. 2023. https://www.scielo.br/j/csp/a/THq8rXh7CDMD3Q9KqwWNYwd/?lang=pt
- Fang C.M. et al. (MIT Media Lab e OpenAI). “How AI and Human Behaviors Shape Psychosocial Effects of Extended Chatbot Use: A Longitudinal Randomized Controlled Study”. arXiv, 2025. https://arxiv.org/abs/2503.17473
- Ministério da Saúde. “Mulheres de São Paulo podem acessar teleatendimento gratuito em saúde mental pelo SUS”. 07/10/2026. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/outubro/mulheres-de-sao-paulo-podem-acessar-teleatendimento-gratuito-em-saude-mental-pelo-sus
- CVV – Centro de Valorização da Vida. https://cvv.org.br/