Vício em apostas: como parar de apostar e acalmar a ansiedade agora que as bets foram proibidas

Vício em apostas: mãos de homem escrevendo em caderno ao lado de calculadora e envelopes de contas, enquanto a mão de uma mulher toca seu braço em apoio

Desde 25 de setembro, as bets estão proibidas no Brasil. Os aplicativos saíram do ar, a publicidade sumiu da TV e das camisas dos times. Mas uma coisa não some por decreto: a vontade de apostar, a culpa pelas perdas e a ansiedade de quem já estava preso nesse ciclo. Se você (ou alguém da sua casa) sente que o vício em apostas deixou marcas, este texto é para você. Vamos falar sem julgamento sobre como saber se sou viciado em apostas, como parar de apostar em bets de verdade, o que fazer quando a vontade aperta e onde buscar ajuda gratuita.

O que mudou com a proibição (e o que não mudou)

A Medida Provisória 1.394/2026 interrompeu em todo o país a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, as chamadas bets, segundo o Ministério da Saúde. A medida ainda é discutida: o Supremo Tribunal Federal marcou para 3 de novembro uma audiência pública sobre os impactos da MP, e o Congresso precisa votá-la. Para a sua saúde, porém, o ponto principal é outro. O próprio Ministério reconhece que a proibição não apaga os efeitos que as apostas já causaram na saúde mental, nas finanças e nas relações. E avisa: a interrupção pode provocar inquietação, irritabilidade e um desejo intenso de voltar a apostar.

Ou seja, sentir ansiedade depois da proibição das bets não é fraqueza de caráter. É o seu sistema nervoso estranhando a falta de um estímulo ao qual se acostumou.

Como saber se sou viciado em apostas?

O transtorno do jogo é reconhecido como problema de saúde. A Organização Mundial da Saúde descreve, a partir da CID-11, três marcas centrais: perda de controle sobre o jogo, prioridade cada vez maior às apostas, que passam na frente de outros interesses e da rotina, e continuar jogando mesmo com consequências negativas. A OMS lembra ainda que o dano começa bem antes do diagnóstico, por exemplo quando o dinheiro do mercado, do aluguel ou da saúde vai para a aposta.

O Ministério da Saúde lista sinais de alerta bem concretos:

  • Mudanças no sono, na alimentação ou no humor.
  • Apostar para aliviar estresse ou frustração.
  • Ansiedade, irritabilidade ou inquietação quando não tem acesso às apostas.
  • Mentir para a família e os amigos sobre o quanto aposta.
  • Tentar recuperar as perdas com novas apostas.
  • Mais consumo de álcool ou outras drogas.
  • Vergonha, culpa e orçamento da casa desequilibrado por causa do jogo.

Um sinal sozinho não fecha diagnóstico, mas vários juntos merecem atenção. E você não está sozinho: em pesquisa do PoderData de setembro de 2025, 35% dos brasileiros que já apostaram disseram ter se endividado por causa das bets, o dobro do ano anterior.

Por que a aposta mexe tanto com a ansiedade

Muita gente passa a usar a aposta como válvula de escape. O Ministério da Saúde aponta entre os fatores de risco a busca por alívio emocional, o histórico de ansiedade ou depressão, a impulsividade e a solidão. Só que o alívio dura pouco: vem a perda, a culpa, a vontade de recuperar o dinheiro e mais ansiedade. Por isso cuidar das emoções é parte central da saída.

Vontade de apostar: o que fazer na hora

A fissura costuma chegar como uma onda: sobe, atinge um pico e, se você não alimentar, vai baixando. Experimente este roteiro quando ela aparecer:

  1. Dê nome ao que está sentindo. Diga para si: “estou com vontade de apostar, e é só uma vontade”. Nomear cria uma pequena distância entre o impulso e a ação.
  2. Acalme o corpo primeiro. Solte o ar devagar, mais longo do que a inspiração, por um minuto. Sinta os pés no chão. Com o corpo menos acelerado, fica mais fácil decidir.
  3. Adie por 15 minutos. Em vez de “nunca mais”, combine “agora não”. Levante, beba água, dê uma volta no quarteirão.
  4. Lembre do custo real. Pense em uma conta concreta que ficou para trás ou em alguém que você ama. Deixe esse lembrete anotado no celular para esses momentos.
  5. Mande mensagem para alguém. “Estou com vontade de apostar, pode conversar comigo?” já quebra o isolamento, que é combustível do vício.

Como parar de apostar em bets: 7 passos para a próxima semana

  1. Não procure atalhos. Sites clandestinos continuam aparecendo, alerta o Ministério da Saúde. Eles são ilegais e você fica ainda mais desprotegido. Bloqueie, desinstale e saia de grupos de “palpites”.
  2. Coloque o dinheiro longe do impulso. Peça a alguém de confiança para ajudar a administrar o cartão por um tempo, reduza limites no banco e evite andar com saldo disponível no celular.
  3. Encare as dívidas no papel. Liste o que deve, para quem e quanto. Ver tudo escrito costuma dar menos medo do que imaginar. Depois, negocie uma por uma.
  4. Preencha o horário das apostas. Se você apostava durante os jogos ou antes de dormir, planeje algo para esses horários: caminhar, treinar, assistir à partida com amigos sem dinheiro envolvido.
  5. Cuide do básico. Sono, comida de verdade e menos álcool deixam o cérebro menos vulnerável à fissura.
  6. Faça o autoteste do SUS. No app Meu SUS Digital, em “Miniapps”, a opção “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental pra Quem Aposta” oferece um autoteste anônimo e teleatendimento gratuito e sigiloso, segundo o Ministério da Saúde.
  7. Procure tratamento. Terapia funciona. Uma revisão da Cochrane encontrou benefícios da terapia cognitivo-comportamental logo após o tratamento para o jogo problemático. Grupos de apoio como os Jogadores Anônimos também ajudam muita gente a não atravessar sozinha.

Vício em apostas tem tratamento pelo SUS?

Tem, e é gratuito. A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). Casos mais graves são acompanhados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), com equipe multiprofissional, atendimentos individuais e em grupo e, quando necessário, medicação. Pelo Meu SUS Digital, o teleatendimento é feito por videochamada, com sessões de cerca de 50 minutos e um ciclo inicial de até dez consultas, depois reavaliado. O serviço também atende familiares.

Como ajudar alguém viciado em apostas

A OMS estima que, para cada pessoa que aposta em nível de alto risco, em média outras seis são afetadas. Se é alguém da sua família, algumas atitudes fazem diferença:

  • Converse sem humilhar. Fale do que você observa (“percebi que você anda sem dormir e as contas atrasaram”) em vez de rótulos como “viciado” ou “irresponsável”.
  • Proteja o orçamento da casa. Ajudar não é pagar dívidas de jogo no escuro. Combine regras claras para o dinheiro.
  • Ofereça caminhos concretos. Mostre o autoteste, ofereça ir junto à UBS ou ao CAPS.
  • Cuide de você também. Familiares podem pedir o teleatendimento do SUS para si mesmos.

Atenção: a OMS aponta que o jogo pode aumentar o risco de doença mental e de suicídio. Se você ou alguém perto de você pensar em tirar a própria vida, ligue agora para o CVV no 188, de graça e 24 horas por dia, ou procure o SAMU (192) ou uma UPA.

Para levar com você

Parar de apostar não é só fechar um aplicativo. É reaprender a lidar com o tédio, a ansiedade e a vontade de resolver a vida num golpe de sorte. Recaídas podem acontecer e não apagam o caminho feito. Recomece no dia seguinte, com apoio. Sua paz não precisa depender do resultado de uma partida.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um psicólogo ou médico.

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